Nem consigo lembrar quando eu entendi que queria ser mãe, por um tempo achei que já havia nascido com esse sonho.
Quando pequena, uma das brincadeiras favoritas era brincar de boneca, de ser mãe.
Carregava um bebezão maior do que eu para todos os cantos que ia.
Depois isso foi mudando, dando lugar às Barbies, às Pollys, até chegar à internet e eu parar de brincar. Mas o sonho de ser mãe continuou ali, intacto.
Vinda de família grande, toda hora chegava um priminho novo na área, e eu ficava alucinada para ajudar a cuidar, pegar no colo, fazer dormir e até trocar fralda.
Na cabeça de uma criança, adolescente e posteriormente jovem adulta, sinais claros de que ser mãe era o meu negócio. E mais: queria ser mãe cedo, inspirada pelos meus próprios pais.
Eles se tornaram pais com 21 e 22 anos, e se uma gravidez já é desafiadora quando se tem tudo planejado, imagina quando acontece de surpresa, na juventude e sem condições financeiras? Pois é, desafio triplicado!
Mas quando mais nova, eu só compreendia a parte legal de ter pais jovens, que tinham pique para me acompanhar nos shows de rock, andar de skate comigo e que falavam a minha língua.
Chegando aos 24, o fenômeno do relógio biológico materno aconteceu: eu só vivia, falava e respirava maternidade. A vontade de ser mãe saia por cada poro da minha pele.
Me lembro de um dia sair para almoçar na Av. Paulista com meu namorado, e todos os bebês e crianças ficarem olhando para nós, brincando com a gente ou dando sorrisinhos.
Era assim em todo lugar que nós íamos.
Mais um sinal do universo, não?!
Nessa mesma época, descobri o parto humanizado e, não só fiquei viciada em assistir partos no Youtube, como passei a pesquisar, ler e seguir todas as pessoas que falavam sobre o assunto, chegando a levantar a hipótese de fazer um curso de doulas.
Pronto, eu já tinha tudo planejado: quantidade de filhos, nomes, via de parto, playlists no spotify para cada filho, método de introdução alimentar, padrinhos e já estava até me preocupando em quando eles começassem a sair sozinhos na adolescência.
Eu PRECISAVA ser mãe.
Eu passei a, literalmente, sonhar com isso.
Era frustrante saber que financeiramente eu e meu namorado não estávamos prontos para viver isso, e que ele ainda não se sentia psicologicamente preparado para ser pai.
Eu estava pronta para ser mãe… pelo menos era o que eu acreditava.
30 anos x maternidade
Ao longo do meu processo de terapia em quase três anos, fui me questionando sobre tudo, ou como diz minha terapeuta: “tirando toda a bagunça da caixa para conseguir reorganizá-la”.
Agora, mais próxima dos trinta anos, o processo doloroso de autoconhecimento está a todo vapor, e um dos pontos que mais comecei a contestar foi o da maternidade.
Toda aquela certeza que eu tinha sobre querer ser mãe, deu lugar a uma montanha-russa de sentimentos, onde hora eu quero, e no minuto seguinte tenho pavor da ideia.
Acredito que grande parte dessa mudança se deu por eu começar a enxergar a maternidade como de fato ela é, e com isso quero dizer que o véu de romantização sobre esse momento caiu.
Trabalhar na Muskinha também colocou um holofote nesse assunto, pois convivo e aprendo diariamente com mães, pais e suas vivências de parentalidade ativa e real.
Aqui nós sempre brincamos que tem dias que o útero coça com tantas crianças fofas que fazem parte da rotina da marca,- nossos mini clientes como chamamos -, mas a troca com os pais e responsáveis, ouvir as histórias, as dificuldades, nos faz romper a bolha de que tudo são flores.
Por muitos anos as mulheres não compartilhavam suas dores e dificuldades em relação ao maternar, e o cenário que construí desde pequena na minha cabeça sobre o assunto, foi enviesado por falas e imagens extremamente positivas, como se gerar e criar um ser humano fosse uma brincadeira divertida.
Ao longo dos anos fui sustentando esse sonho, imaginando como seria mágico descobrir uma gravidez, mil ideias criativas de contar para a família sobre, ou o quanto minha mãe ficaria emocionada com o primeiro neto, até o sonhado parto humanizado sem anestesia na banheira.
Isso tudo poderia acontecer, mas para mim, não são os critérios corretos para essa tomada de decisão tão importante e irrevogável.
Colocar um ser humano no mundo é muito sério, principalmente nos dias atuais, onde parece que estamos retrocedendo como sociedade.
Depois que nasce, não dá para voltar atrás, não dá para enjoar da ideia de ser mãe ou pai. É para sempre.
Quando essa decisão é tomada, a sua missão é educar e tornar aquele mini ser humano uma boa pessoa para ele mesmo, para a sociedade e para o mundo.
Na época dos 24 anos eu já havia entendido esse motivo maior de querer ter um filho, e parece uma ideia muito legal esse projeto de criar um ser humano bom, alguém que faça parte da geração que vai mudar o mundo para melhor, mas ao mesmo tempo volta a ser um ideal romântico.
Será que é justo colocar esse filho no mundo, com essa sociedade doente de hoje, repleta de violência, intolerância, preconceito, com a natureza respirando por aparelhos?
E sabemos que todos esses fatores geram ansiedade, pânico, depressão… Seria justo colocar mais uma pessoa no mundo vulnerável à essas e tantas outras condições psicológicas e emocionais?
E vou além: É correto que, antes mesmo de nascer, eu já “presentear” esse ser com a responsabilidade de ter que mudar tudo isso?
O tempo todo ouço na terapia sobre não colocar expectativa nas pessoas, e olha eu aqui, fazendo isso com um ser que eu nem sei se vai existir.
Esses questionamentos me fizeram pensar se eu não seria muito egoísta em ignorar todos os fatos ditos anteriormente, apenas para saciar essa até então vontade de ter um filho.
Às vezes fico pensando se isso já não é o tal “amor de mãe” dando às caras, de ter medo e não querer de forma alguma que esse serzinho sofra.
Ou será que todos esses questionamentos são, na verdade, desculpas (bem coerentes, diga-se de passagem) que repito para mim mesma querendo camuflar os diversos medos e desafios que envolvem o maternar? Como uma espécie de mecanismo de defesa para evitar um sofrimento futuro.
Fato é que o novo assusta, o futuro assusta, as incertezas, e (pessoalmente) a falta de controle me assusta.
A cada piscar de olhos surge um novo questionamento, diversas reflexões e nenhuma resposta, junto com uma voz que insiste em dizer que você tem quase 30 e pouco tempo para tomar essa decisão.
Sem pressão (risos nervosos).
Em algum momento vocês também passaram por essa fase?
Sintam-se à vontade para compartilhar as experiências de vocês aqui nos comentários.
Vamos fazer desse espaço o nosso lugar de troca.
Eu quero mesmo ser mãe?

