O ano de 2023 é o décimo em que me vejo no papel de protagonista no dia dos pais.
No primeiro deles, – 2013 – na verdade, eu ainda não tinha alcançado esse status, vivia a expectativa.
De lá para cá, passou tempo suficiente para que minhas memórias dessa data se limitassem a um punhado de sensações emuladas a respeito de um futuro que ainda não tinha chegado.
Por perto daquela data, minha vivência só me permitia projetar coisas do tipo “quando eu for pai…”, e completar a frase com alguma ação ou gesto em relação à minha nova condição de que eu, provavelmente, devesse me orgulhar. “Vou fazer isso, aquilo e vários outros “‘aquilos’”.
Ao longo dos oito anos seguintes, meu protagonismo nessa data se concretizou.
Fui comemorado, comemorei e, agora, caio na tentação de fazer um “balanço da década”, olhar em perspectiva os altos e baixos do período sob as lentes que adquiri ao longo do tempo.
Fico tranquilo em poder dizer que muitas vezes completei de maneira satisfatória a frase. Como pai, fiz coisas legais.
É claro que fui insuficiente, contraditório e ineficiente como pai em alguns momentos. Acontece. Mas tenho certa tranquilidade de afirmar que “pelo menos, nunca abri mão de tentar ser um bom pai”.
Pode parecer banal, quase óbvio, que todo pai sempre tente. No entanto, em tempos em que meninas veem Barbie e meninos veem Oppenheimer, a análise pode não ser tão simples.
O que é coisa de pai, o que não é? Aqui para mim, tem muita gente, tradição, liderança, influenciador, mercado, instituição, boato, moda e crença tentando cravar o que está e o que não está no job description.
Na verdade, nada disso deveria limitar o que entra ou o que não entra na função.
Ainda aqui pra mim, os limites do papel deveriam ser desenhados pelos sentimentos em relação aos filhos, pela possibilidade de responder a demandas, sem se prender às linhas que foram traçadas por alguém em algum momento.
Minha profissão me leva a visitar lares brasileiros em busca de respostas para perguntas do tipo “por que o consumidor prefere marca x à marca y” de determinada categoria de produtos – e me presenteia com a reflexões sobre outras questões muitas vezes mais profundas. Cansei de ouvir marmanjos, ao discutir a escolha de eletrodomésticos, produtos de limpeza e até alimentação, dizerem com sorriso amarelo, que “isso não é comigo, é departamento dela”, referindo-se à esposa. Recentemente tive contato com a observação de que muitos pais acompanham suas esposas até a loja, mas não dão um pitaco sequer na escolha dos móveis e decoração dos quartos dos filhos.
Tem noção do quanto essa delimitação de “departamentos” significa em termos de renúncia? Por trás dessas decisões se desdobram as definições de como vão ser tratadas em casa questões básicas como higiene e alimentação, mas também chegando a esferas como o conforto, segurança, bem-estar, estímulo sensorial e estético…. É coisa de pai? Ou a ele só resta a trabalho de passar o cartão?
Sempre dá tempo de salvar a memória de uma década singular da vida fazendo aquilo que é esperado do pai – ou seja, brincando, correndo, jogando, pagando contas, mas também questionando e alargando os limites do que dizem ser seu papel. Pais, envolvam-se, ampliem seu “departamento”. É gostoso.
Paulo Darcie

Pai da Bia, de 9 anos, jornalista, pesquisador de comportamento e mercado na IMO Insights.


Uma resposta para “Sobre paternidade: Envolva-se”
Me identifico muito , iniciamos esse cargo despreparados e depois nos sentimos confiantes. Parabéns pelo relato ,
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