Já ouviu falar em Reggio Emília?

Em um dia normal de trabalho na Muskinha, encontrei um livro chamado “Play+ arredi per l’infanzia” ou, segundo meu amigo Google Tradutor, móveis para a infância.

Folheei as páginas do livro que descobri ser uma empresa italiana de design e encontrei fotos de crianças interagindo com móveis lindos, coloridos, modulares e multifuncionais inspirados em Reggio Emília. Curiosíssima, perguntei sobre o livro para a Amanda e ela, com sua empolgação clássica e contagiante de quando fala sobre algo que acredita, me contou brevemente sobre a história da metodologia pedagogica que surgiu no norte da Itália na cidade de… Reggio Emilia!

Divulgação/Educação Integral.

Surgimento da pedagogia

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a comunidade de Villa Cella (um vilarejo de Reggio) se uniu para reconstruir a escola da região que receberia o nome “25 Aprille” – uma referência à data que marcou o fim da ditadura fascista na Itália.

Parte dos fundos para a construção se deu pela venda de um tanque de guerra e a gestão da escola seria feita pelos pais dos estudantes, em parceria com a União das Mulheres Italianas, que já administravam outras escolas em Reggio Emilia.

Divulgação/Unisinos.

A iniciativa chamou a atenção de Loris Malaguzzi, o pedagogo que posteriormente desenvolveria a abordagem que coloca a criança no centro do processo pedagógico. Malaguzzi atuou por 7 anos na escola 25 Aprille que passou a ser administrada pelo município no fim dos anos 60, mantendo a abordagem educacional que leva o mesmo nome da cidade italiana.

Anos mais tarde, a filosofia Reggiana se tornou referência graças a uma reportagem da Newsweek de 1991. Três anos depois, a Reggio Children surgiu como um centro de pesquisa e defesa dos direitos das crianças – hoje a rede conta com diversas escolas e creches na Itália, além de promover a formação de educadores em 34 países, incluindo o Brasil.

Conversa com a pedagoga

Bem, com essa breve apresentação vocês podem imaginar que fiquei interessadíssima sobre o assunto, o que me levou à ideia de escrever sobre o tema para o nosso recém lançado blog. E é assim que chegamos ao nome da dona do exemplar que me introduziu ao assunto e, não coincidentemente, entrevistada de hoje: Vanessa Galvani!

Vanessa é pedagoga, mestre em educação, neuroeducadora emocional, escritora e instrutora do Hand in Hand Parenting no Brasil, além de ser mãe da Alice e da Amanda e uma pessoa altamente inspiradora que topou me contar um pouco sobre Reggio e a sua trajetória com a filosofia.

Seu primeiro contato com Reggio Emília foi nos anos 2000, enquanto cursava pedagogia e foi aprovada para estagiar em um projeto educacional, uma iniciativa da CAASP como benefício para os associados da OAB. Através de uma pesquisa anual, a instituição constatou a necessidade de um ambiente educativo de qualidade e com mensalidade acessível para os filhos de advogados e associados que trabalhavam no centro de São Paulo.

Assim surgiu o CECEI, um projeto inovador localizado nos três últimos andares de um prédio na praça da Sé. A responsável pelo projeto arquitetônico do centro educacional foi Ana Beatriz Goulart de Faria – arquiteta, ativista e pesquisadora sobre arquitetura escolar.

Durante nosso papo, Vanessa relata sobre esse lugar com uma aura mágica que me despertou uma vontade imediata de conhecê-lo.

“Os três andares que formavam o CECEI eram interligados através de um túnel de madeira – apelidado de Formigueiro pelos funcionários -, além dos móveis na altura das crianças e das portas de madeira vazadas que incentivava a comunicação entre eles. Todo o espaço foi projetado para que as crianças de 0 a 6 anos transitassem e convivessem em comunidade”, Vanessa conta.

O CECEI fechou as portas em 2008, mas criou um repertório profissional riquíssimo em Vanessa, que me contou mais detalhes sobre a abordagem.

Diferenças e semelhanças

Uma das minhas curiosidades sobre Reggio surgiu por algumas semelhanças que notei em comparação com Montessori e a resposta é cronologicamente simples: a paridade acontece porque a maioria das metodologias pedagógicas se inspiraram nos estudos da educadora italiana.

Já as diferenças são inúmeras, começando pelo forte teor artístico e a importância estética dos espaços em que a criança habita, além da aplicação pedagógica no dia a dia.

“A abordagem é totalmente centrada e adaptada para cada criança, diferente de como estamos organizados hoje, onde ela se adapta à escola. Os educadores servem como mediadores do conhecimento de acordo com os interesses dela – nós observamos a criança e a partir dessa observação descobrimos sobre o que ela está interessada para desenvolver um projeto de ensino, sempre seguindo as diretrizes do MEC, claro” Vanessa explica.

A arte como fio condutor

Um aspecto que foi amplamente mencionado durante nosso papo é a questão estética como fio condutor da abordagem Reggiana. “O acesso a beleza, arte e cultura é imprescindível quando se fala na metodologia, principalmente quando entendemos que, se a infância é a fase de potência do ser humano, ele tem que estar em contato com o que há de melhor e mais belo”.

Vanessa relata que em toda sala de aula há um mini ateliê destinado aos projetos artísticos das crianças, comumente feitos com os chamados objetos não estruturados. Na cidade de Reggio Emília, há um centro de reciclagem e aproveitamento de materiais descartados por empresas, o Remida. Trata-se de um projeto gratuito e aberto ao público infantil, onde os materiais com grande potencial artístico – cones, carretéis, caixas, conduítes, retalhos de tecido e elementos da natureza, por exemplo – são organizados por cores e materialidade.

Divulgação/Economia Circolare.

Esses objetos permitem que a criança construa novas possibilidades de acordo com sua criatividade – até mesmo porque dentro da abordagem não é comum encontrar brinquedos convencionais, a ideia é que todos os objetos no entorno sejam brincadeiras em potencial.

Móveis “móveis”

Os móveis inspirados em Reggio Emília partem do princípio da beleza e da funcionalidade e têm um papel de peso, tanto pela capacidade de influenciar o desenvolvimento perceptivo e cognitivo das crianças, como por formarem um ambiente de alta qualidade sensorial, o que está diretamente ligado ao aprendizado infatil.

Além disso, os móveis são planejados estrategicamente para atenderem a função de flexibilidade e mutabilidade dentro dos ambientes em que as crianças convivem coletivamente e, assim, podem ser usados para as mais infinitas finalidades – brincar, descansar, criar, etc.

Já deu para perceber que não faltam assuntos sobre Reggio, né?
Por isso, separei alguns links interessantes (além dos que já estão ao longo do post nas palavras clicáveis – fica a dica!) para quem quiser continuar a leitura 🙂

https://www.playpiudesign.com/

https://www.cantinhodamusica.com.br/artigos/bncc_e_suas_relacoes_com_a_abordagem_reggio_emilia.html

https://poseducacao.unisinos.br/blog/abordagem-reggio-emilia#:~:text=na%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20Infantil-,A%20hist%C3%B3ria%20da%20abordagem%20Reggio%20Emilia,d%C3%A1%20nome%20%C3%A0%20abordagem%20pedag%C3%B3gica.

3 respostas para “Já ouviu falar em Reggio Emília?”

  1. Adoro como a abordagem pedagógica de Reggio Emilia coloca as crianças no centro do processo de aprendizado. É como se a curiosidade delas fosse a bússola que guia todo o caminho. Educação autêntica e significativa!

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